Utilizando a técnica do romance histórico, Manoel Luiz Varela soube injetar sangue nas veias de seus personagens, ou seja, apresentá-los ao leitor como seres humanos verdadeiros. Saber que George tocou violino em casas noturnas nos seus primeiros tempos em Nova Iorque, para não passar fome com sua mulher, o Google pode nos informar rapidamente. Viver aquele momento, como se o estivéssemos assistindo, somente na leitura deste livro. O mesmo acontece em muitas outras cenas recriadas pelo autor, como no casamento de George e Andromache, quando descobrimos até porque os gregos costumam quebrar pratos em suas celebrações. Sim, este livro é uma biografia escrita com a técnica do romance, como Homero o fez na antiguidade, Victor Hugo no século XIX, Erico Verissimo, no século XX e muitos de nós o fazemos nos dias atuais, inclusive eu. A única coisa proibida num romance desta natureza é faltar com a verdade histórica. E esse pecado jamais é cometido pelo nosso escritor Manoel Luiz Varela. Tudo isso, sem que o escritor deixe de lado os aspectos principais do trabalho científico de seu biografado.
SUMÁRIO: Parto inesquecível / A criação do homem/ A via sacra / A bailarina e o toureiro / O silêncio da floresta / Os plantadores de batatas / O trenzinho dos caipiras / O esqueleto e o escaravelho sagrado / Um certo capitão Herculano / Pacto com a morte / A incrível contadora de histórias / Amor e traição / Fundo do poço / A cadeira do dragão / O amor na pandemia / Um cão chamado Argos / O apagão / O transplante / O canto da sereia / Soldadinhos de chumbo / Orgulho imortal / Luar quente / O espelho mágico / O silêncio / Um corpo na praia / A casa / As quatro estações / O vestibular: memória do verão de 1967 / A aula inaugural / A equipe de salvamento dos afogados / Um congresso no Rio de Janeiro / Conhecendo o Prêmio Nobel / Os heróis anônimos / O chamado urgente na aldeia indígena / A indígena e o caramuru / Dejen que trabajen los trombocitos / Miniatura I / Miniatura II / Nasceu sorrindo / O velho quase cego / Um anjo negro / O pampa e o vento / O loboi-guará e os apenados / Um gladiador revolucionário / Os três conselhos / O cálculo urinário / O Deus Júpiter e a sua irmã Juno / O circo das ilusões / Memórias de um cinéfilo / A história da construção de um hospital
PREFÁCIO
O LIVRO DE CONTOS DO DOUTOR MANOEL
Quem foi meu aluno-escritor em Oficina Literária, como o autor deste livro, sabe que a palavra-chave para conquistar o leitor é emoção. Vocábulo que o velho Larousse define como agitação causada por alegria, surpresa, medo, recordação.
Pois emoção é o que transpira de cada um dos contos escritos por Manoel Luiz Varela. Até porque, seguindo a recomendação de Hemingway, ele só escreve sobre os assuntos que domina, principalmente recriações de momentos marcantes em sua longa carreira de médico.
Ainda menino, Manoel definiu o desejo de seguir o caminho de Esculápio, e nos encanta com relatos de suas diferentes etapas, como do dia em que passou no vestibular, no que adentrou a velha Faculdade de Medicina da UFRGS, do susto com o esqueleto numa aula de Anatomia, da viagem a Buenos Aires, sin ninguna plata, para conhecer o Professor Bernard Houssay, o argentino que conquistou o Prêmio Nobel de Medicina.
Depois, recém-formado, nos leva para assistir uma operação de sete horas de um cirurgião famoso, mas que veio a Porto Alegre para ser aplaudido, reverenciado, mesmo ao risco da vida da paciente. E logo nos mostra o contraste nos levando consigo para um pequeno hospital à beira mar, onde até a cozinheira se transforma em auxiliar de enfermagem, pois salvar as vítimas de afogamento é a palavra de ordem. Sem nos dar tempo de respirar, entra numa canoa e vai medicar um velho indígena, descrevendo cada detalhe em palavras que nos agitam, nos dão medo e nos alegram no final feliz.
Manoel Luiz Varela também incursiona com maestria por outros caminhos, mas retorna às narrativas de sua vivência na arte de salvar vidas, de amenizar a dor, de retirar todos os ruídos, toda a luminosidade da sala de parto, para que somente a mãe possa dar à luz.
Encanta-me também a maneira como esgrima em alguns contos com o egoísmo humano, como aquele do cego que foi escorraçado pelos outros pacientes, nos dando a última estocada com palavras de Saramago em sua obra prima, Um ensaio sobre a cegueira.
Se não resistir à tentação, o leitor pode devorar este livro de um único fôlego, mas Parto inesquecível e outros contos merecerá sempre uma degustação demorada, conto por conto, gole por gole) como fazemos ao beber um vinho de casta rara, produto do terroir de um médico escritor.
Alcy Cheuiche
Porto Alegre – Inverno de 2023
A história de um jovem médico, José Ferraz, que mora numa mansão antiga na cidade de Porto Alegre, conhecida como a Casa das Magnólias. Ali viveram gerações da família Ferraz.
É no ano de 1987 que surge uma proposta milionária de compra desse casarão por uma grande construtora e incorporadora. José passa a viver um grande dilema entre vender ou não o referido imóvel, por tudo que ele representa para a história de sua família, além dos valores sentimentais. Havia o risco de tudo virar pó e esquecimento.
Narra-se aqui a trajetória de três gerações dessa família, passando pelo ano de 2013, em que a cidade se preparava para a Copa do Mundo da Fifa, até o ano de 2032.
A viagem maravilhosa de José Ferraz e Lígia, sua amada, a Portugal, Espanha e Turquia, repleta de surpresas, é contada nesse livro.
O autor se contenta com a criação dessa fábula e espera que o leitor vivencie a obra de modo prazeroso.
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“Uma casa como muitas outras, numa rua nem tão distinta, dentro de uma cidade que, no fim das contas, é meio parecida com várias. Mas, quando olhada com cuidado e atenção, a mesma casa ganha distinção e parece única, e algo assim ocorre também com a rua e até a cidade.
É disso que se trata aqui: a memória, transformada em uma narrativa, destaca e fixa para o futuro aquilo que corria o risco de virar pó, fumaça, esquecimento.
O exercício que Manoel Varela nos apresenta aqui tem o grande mérito de mergulhar numa história particular, revivê-la mediante os fatos aqui narrados, para enfim evidenciar o que de coletivo na experiência individual – justamente o pertencimento de cada um de nós ao território comum da cidade – está aqui no que vivemos e que se engrandece e pereniza pela narrativa”.
Luís Augusto Fischer